No entanto, sentia-me uma verdadeira criança.
Chapinhava nas poças lameladas com um sorriso de orelha a orelha para o meu colega de brincadeira.
Eu adorava aquilo. Era o meu apogeu de felicidade, coisa que não sentia à muito.
À distância ouvia fragmentos de música, e o cheiro de sobremesas acabadas de fazer. Apesar de tal tentação, continuo na galhofa com o dito cujo.
- Sabes que és muito difícil não sabes?
- Ora essa, era suposto eu ser fácil, é isso?
Rio-me cinicamente como ele fosse capaz, em circunstância alguma, contrariar a minha teimosia.
- Não,claro que não! Fazes tu muito bem em ser difícil! Mas comigo é outra história.
-Ai sim? E então porquê?
-Ora porque estou contigo...
-E isso já é um caso diferente não é verdade?
-Claro... e nem sequer devias pensar dessa forma. A sério, sem brincadeiras. Não devias pensar tanto nas coisas... tu sabes como ficas quando o fazes.
E imediatamente penso: merda... ele tem razão...
Começo a caminhar mais depressa, como quisesse ultrapassar fisicamente a velocidade dos meus pensamentos.
-Sabes que podes ir mais devagar não sabes?
-Sabes que podes parar de fazer perguntas,não sabes?
-Estava a brincar contigo, mas ok,eu paro...
Até que de repente paro.
-Eu sei que tens razão ok? Mas faz parte de mim. Antes de abrir a boca tenho de pensar umas 50 vezes antes de dizer algo, e não é fácil para mim... Não é fácil perder a timidez socializar, e principalmente, dizer-te tudo o que penso. É difícil. É difícil porque isto é como fosse uma maldição. A cada hora, cada minuto,a cada segundo tenho de ter controlo. Controlo no que digo. Já não sou tanto assim mas... é difícil. Dá-me tempo.
-Dou-te o tempo que precisares. Mas eu sei que ias ser mais feliz se não o fizesses... Mas já agora, comigo estás sempre a pensar no que hás de dizer?
- Não... algumas vezes sim, mas não sei como, a maior parte das vezes não penso, digo-o.
-Isso é bom certo?
Como resposta pontapeio uma poça de água contra ele e rio-me desalmadamente.
-Ok... vou considerar isso como um sim.
S*
