Uma nuvem transportadora de uma tal enormidade, assemelha-se aos meus pensamentos...
Chapinho contra as poças, e sinto-me gelar.
O ar torna-se cada vez mais gélido ao ponto da minha pele aproximar-se (ironicamente) da minha cor predilecta - roxo.
Arfando, caminho cada vez mais depressa.
Inequivo-me do que terei de bom. Do que terei para oferecer, que outra não tem.
Sei perfeitamente que não deveria ousar sequer pensar assim.... mas é mais forte que eu.
Dezassete anos de negativismo, de ódio e dor não somem subitamente.
Então,debatendo-me com os meus pensamentos, decido por os auriculares nos ouvidos para abafar o barulho interior.
Sim... Música.... Fora os livros, única salvação.
Mas para ser sincera, talvez o ópio a que Campos recorre não me parecesse tão má ideia...
É então que me penetra abruptamente o som pela alma, e entendo: É a nossa música.
O quanto ridícula eu sou, o quanto sentimental sou, o quanto emocionalmente instável sou.
E eu gostaria tanto de prometer que iria melhorar... Mas tal promessa não ouso selar, pois sei que nunca seria cumprida.
Apenas o simples facto de desvelar os meus pensamentos, é muito mais doloroso que qualquer falacioso jogo preparado pelo psicopata do Saw, que possa ser posto em práctica.
Para piorar, a saudade aumenta.
Sinto-me tão ridícula, tão estúpida, tão... tão eu.
Eu tenho medo. Aliás, tenho fobia.
Tenho fobia de socializar, de me abrir, de me dar a conhecer.
Tenho medo das bocas, dos pensamentos interiores, dos problemas futuros....
Passo-me,de pensar nas inúmeras alternativas!!
É algo que está foro do meu controlo, e isso mata-me!! É algo tão puramente metafísico que dilacera cada partícula do meu ser.
Eu quero controlar.
Quero controlar cada sílaba que diga, cada movimento efectuado, cada sorriso real e fictício, cada reacção,cada impulso, cada pensamento, e até mesmo, cada palavra aqui escrita!
Eu passo-me, fico fora de mim de não saber.... não saber o que fazer...
Habituei-me tanto ao controlo, que qualquer outra realidade me é desconhecida.
Eu não estou habituada... Não estou habituada a esta ousadia de controlo, e por isso mesmo, doí-me colocar toda a minha afectividade sobre uma pessoa.
Mas eu amo-o.
E ele sabe-o.
A única esperança que declaro vivamente, é que termine como qualquer sonho infanta-juvenil:
Felizes para sempre
S*
Gotículas de água fustigam contra a superfície vidrada, contrastando com o calor da divisão.
Suspirando-me, diz:
-Encosta-te.
-Eu estou bem assim...
-Estás outra vez a fazer-te de difícil?
-Eu tenho uma personalidade bem controversa...
-Eu digo-te o controversa.
Não sabes olhar para ti,não??
-Sei... até olho bem demais.. aliás, tu é que usas óculos...
- Por isso mesmo, eu é que vejo bem! Quando é que vais ver que és bonita?
-Quando é que vais ver que és lindo?
-Eu sei que sou, e tu, sabes que és?
Odeio quando ele começa com os trocadilhos... (mentiroso , não te achas lindo)
-Acredito sim, quando estou contigo.
Feliz?
-Sim.
Agora sim.
S*
O sol expelia os seus restantes suspiros de vida.O ar gelado cortava-me a pele.
No entanto, sentia-me uma verdadeira criança.
Chapinhava nas poças lameladas com um sorriso de orelha a orelha para o meu colega de brincadeira.
Eu adorava aquilo. Era o meu apogeu de felicidade, coisa que não sentia à muito.
À distância ouvia fragmentos de música, e o cheiro de sobremesas acabadas de fazer. Apesar de tal tentação, continuo na galhofa com o dito cujo.
- Sabes que és muito difícil não sabes?
- Ora essa, era suposto eu ser fácil, é isso?
Rio-me cinicamente como ele fosse capaz, em circunstância alguma, contrariar a minha teimosia.
- Não,claro que não! Fazes tu muito bem em ser difícil! Mas comigo é outra história.
-Ai sim? E então porquê?
-Ora porque estou contigo...
-E isso já é um caso diferente não é verdade?
-Claro... e nem sequer devias pensar dessa forma. A sério, sem brincadeiras. Não devias pensar tanto nas coisas... tu sabes como ficas quando o fazes.
E imediatamente penso: merda... ele tem razão...
Começo a caminhar mais depressa, como quisesse ultrapassar fisicamente a velocidade dos meus pensamentos.
-Sabes que podes ir mais devagar não sabes?
-Sabes que podes parar de fazer perguntas,não sabes?
-Estava a brincar contigo, mas ok,eu paro...
Até que de repente paro.
-Eu sei que tens razão ok? Mas faz parte de mim. Antes de abrir a boca tenho de pensar umas 50 vezes antes de dizer algo, e não é fácil para mim... Não é fácil perder a timidez socializar, e principalmente, dizer-te tudo o que penso. É difícil. É difícil porque isto é como fosse uma maldição. A cada hora, cada minuto,a cada segundo tenho de ter controlo. Controlo no que digo. Já não sou tanto assim mas... é difícil. Dá-me tempo.
-Dou-te o tempo que precisares. Mas eu sei que ias ser mais feliz se não o fizesses... Mas já agora, comigo estás sempre a pensar no que hás de dizer?
- Não... algumas vezes sim, mas não sei como, a maior parte das vezes não penso, digo-o.
-Isso é bom certo?
Como resposta pontapeio uma poça de água contra ele e rio-me desalmadamente.
-Ok... vou considerar isso como um sim.
S*
O momento em que eu começo a entender a anorexia/bulimia.
Snowiii*